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Entrevista com pastor Sameh Maurice, do Egito


Líder de igreja evangélica no Cairo fala sobre atual situação dos cristãos no país e descreve perspectivas


Uma janela notável se abriu para o ministério da Igreja Evangélica Al-Dubara, no centro do Cairo, Egito, quando a “Primavera Árabe” começou a estourar na Praça Tahrir e sobre o palácio do então presidente Mubarak. Nas semanas seguintes ao início das manifestações, parte da mídia voltou suas câmeras para aquela igreja da cidade, próxima à praça, uma vez que a Igreja Evangélica Al-Dubara fora transformada em um hospital para os feridos, acolhendo jovens revolucionários e oferecendo aconselhamento em meio ao caos.

Em meio àquele conflito, até mesmo alguns radicais islâmicos chegaram a afirmar que o líder daquela igreja, o pastor e doutor Sameh Maurice, falara “palavras sábias”; e os enlutados, que eram acolhidos pela igreja, enfatizavam que as palavras de Maurice lhes serviram de conforto. Terminadas as manifestações, a igreja em Al-Dubara, antes desprezada, passou a ser mais respeitada no país.

No final de janeiro, o pastor Maurice concedeu uma entrevista no Cairo a Brian Stiller, embaixador global da Aliança Evangélica Mundial e assessor editorial sênior do jornal norte-americano “The Christian Post”. Nela, ele fala sobre o papel ativo de sua igreja em meio aos conflitos daquela revolução no Egito e sobre o melhor relacionamento que há hoje entre a Igreja Copta e os evangélicos desde a revolução, e como alguns muçulmanos passaram a respeitar a Igreja de Al-Dubara.

O que se segue é uma parte dessa entrevista, publicada originalmente no “The Christian Post” em fevereiro e gentilmente cedida ao jornal Mensageiro da Paz, onde foi publicada parcialmente.


Dr. Maurice, como o senhor veio ao ministério pastoral?
Como cristão, minha infância foi muito envolvida na nossa igreja. Em 1974, comecei a liderar o grupo de jovens. Na época, estávamos sem um ministro. Estudei medicina, mas, em 1985, fui desafiado por Deus a dar a minha vida para o serviço de tempo integral na igreja. Eu tinha terminado meus estudos de mestrado como um cirurgião e planejado uma carreira na medicina. Naquele momento, experimentávamos um despertar espiritual real entre os nossos jovens. Um grupo de estudantes da universidade tornou-se o maior grupo dentro da igreja. Começamos também um programa de reabilitação de drogas, porque em uma de nossos campos descobrimos que havia cinco viciados em drogas no grupo. Oramos muito por eles e, com o tempo, eles foram libertos completamente, sem quaisquer sintomas de abstinência. Como resultado, nós nos encontramos no meio do ministério. Um dos nossos membros foi estudar psiquiatria, e decidiu levar esse trabalho com dependentes adiante. Na verdade, Deus nos levou a esse ministério. Demorou dois anos para minha esposa e eu decidirmos. Finalmente, sentimos que era a nossa vocação. Terminei o estudo teológico e, em 1993, fui ordenado ao pastorado. O presbitério estava relutante em me ordenar. Eles demoraram três anos a decidir, porque eles achavam que eu era meio pentecostal e sentiam que isso poderia ser perigoso para a Igreja Presbiteriana. O pastor sênior desempenhou um papel importante. Ele era o meu pai espiritual. Um grande pastor, chamado Menis Abdel Moor, que escreveu 60 livros sobre apologética. Por causa dele, a igreja se conscientizou sobre a importância de ensinar às pessoas sobre Cristo.

Quando tornei-me pastor, construí a igreja em torno de uma equipe. Hoje, temos dez pregadores e muitos deles são agora oradores famosos. A igreja cresceu de mil para 7 mil crentes em sete anos e, desde então, temos nos envolvido em nível nacional.

Estamos sentados em um centro de conferências de 130 acres que fica a uma hora a noroeste do Cairo. Como foi que isso aconteceu? Qual foi a visão que o moveu a dirigir o seu ministério para além de sua igreja localizada na Praça Tahrir?
Tudo começou quando uma mulher nos deu um pedaço de terra porque precisávamos de um lugar para trabalhar com tóxico-dependentes. Tivemos que fazer a recuperação do terreno e construir o primeiro centro de reabilitação de drogas no mundo árabe. Então, surgiu a ideia de criarmos um centro mutiuso para conferência e lazer. Era um sonho antigo, mas agora tínhamos um pedaço de terra. Em seguida, compramos mais um terreno e chegamos aos 130 hectares, onde abrigamos campos de esportes, centros de conferência, centros de oração e centros de formação. Atualmente, estamos construindo um estádio para realizar os grandes eventos evangélicos, como a conferência nacional de oração e uma campanha evangelística. No ano passado, tivemos 45 mil participando ao longo dos quatro dias de festivais evangelísticos, com milhares fazendo confissão de fé. Durante os festivais evangelísticos, existem 12 diferentes áreas de atividades, onde há filmes, dramatização, eventos esportivos e música. Então, no final do dia, nos reunimos para uma reunião evangelística que é transmitida em todo o mundo de língua árabe.

Quantos muçulmanos participam?
Não sabemos. As pessoas simplesmente compram bilhetes e vêm. Esse é o sexto ano do evento, o qual chamamos de “Conte isso direito”. Ele é realizado no período de outono, quando é o tempo de férias. O local tornou-se famoso. Aqui, oferecemos atividades para cristãos e muçulmanos.

O que mais faz parte da visão de sua igreja?
Temos um hospital no centro do Cairo, e as equipes de missão médica em todo o Egito. Temos também o “Amor Solidário”, que consiste em entrarmos em favelas para distribuir calças, alimentos e fazer atividades com as pessoas, como na área de música. Temos ainda um trabalho com 750 crianças.

Como sua igreja foi colocada no mapa da revolução em 2011?
Uma razão era que estávamos orando pelo Egito por 10 anos. No ano anterior, tivemos uma mensagem clara: “Neste ano, algo único acontecerá e irá mudar a terra”. Com base nessa mensagem, nós colocamos um banner: “O que vou fazer por você é incrível!”. Então, quando a revolução chegou, nós não ficamos chocados, porque esperávamos isso de Deus, uma oportunidade para nossa igreja. Nós não ficamos chocados porque estávamos esperando e buscando algo especial para acontecer naquele ano, o que nos fez ficarmos preparados para reagir adequadamente. Além disso, nós já estávamos muito envolvidos com os direitos humanos. Havíamos montado uma ONG como parte de nosso ministério da igreja para lidar com os direitos humanos. E finalmente, ainda temos a nossa localização geográfica. Estamos na praça onde a revolução aconteceu. Tínhamos duas opções: fechar as portas e dizer que não estamos aqui ou abrir as portas e dizer que estamos aqui. Toda sexta-feira, fomos convidados a ir para a praça, onde orávamos e adorávamos ao Senhor, como os muçulmanos fizeram em relação à sua fé. Fomos convidados.

Como você construiu suas relações com os muçulmanos e seus líderes?
Eles confiavam em nós porque conheciam o trabalho com direitos humanos que funciona ligado a nós. Além disso, no núcleo revolucionário havia jovens, e dentre eles uma médica membro de nossa igreja. Ela não era tão ativa no momento e nós não a conhecíamos muito bem. Além disso, muitos dos nossos jovens estavam envolvidos na revolução – eles estavam nas ruas. Nos primeiros dias, quatro jovens da nossa igreja participaram. Então, acabamos nos encontrando na revolução.

A igreja reagiu, guiada por Deus, para dizer o que deve ser dito, para fazer o que deve ser feito; e nas pequenas coisas que fizemos, recebemos o agradecimento e o elogiado de todos. Após a renúncia de Mubarak, foi realizada a primeira celebração. Convidamos as pessoas centrais da revolução: mídia, as famílias dos mártires, líderes muçulmanos, para agradecer e honrá-los, dar-lhes presentes. Nós fizemos isso de forma espontânea, mas acreditamos que fomos conduzidos pelo Espírito. Fomos os primeiros a fazê-lo. Então, a mídia divulgou isso e, desde então, nos tornamos amigos íntimos de nomes famosos da revolução. Fomos os primeiros a reuni-los todos durante um café para discutir o futuro. Nós fizemos isso inocentemente, mas o que podemos fazer nós fizemos. Levamos eles a conhecerem uns aos outros. Fizemos pequenas coisas.

Com a segunda onda da revolução, que foi a queda de 2011, houve ataques à revolução. Mais cedo não tinha sido o caso, mas na segunda onda, os ataques eram muito duros. Esse foi o momento em que abrimos a igreja como um hospital de campanha. Mais uma vez, as atenções se voltaram para nós. Fizemos isso por amor e patriotismo, e Deus fez algo com isso. Éramos conhecidos e apreciados por todos.

O que isso fez por você e seu ministério?
Percebi que era uma voz e que nos tornávamos uma ponte, uma voz a ser ouvida. Então, tivemos que ter cuidado com o que dizíamos. Tornamo-nos construtores de pontes entre a comunidade cristã e a muçulmana. Trabalhando e ajudando uns aos outros, tudo em uma base cristã. Nós também nos tornamos uma voz profética da igreja. A igreja tornou-se orgulhosa do que estávamos fazendo; eles esperávamos que os levássemos ao que dizer e fazer. Eles confiaram em nossa agenda, até mesmo a Igreja Ortodoxa (copta).

Como a Igreja Ortodoxa, a comunidade cristã dominante, se sentiu vendo vocês, uma pequena minoria, se tornando o centro das atenções?
Pela graça de Deus, o que fizemos, salvou a face do cristianismo, na frente de cristãos e muçulmanos. No início, a posição oficial Ortodoxa estava apoiando o governo Mubarak contra a revolução. O fato de haver alguém cristão para apoiar as bandeiras da revolução salvou a nossa cara do cristianismo para o mundo muçulmano, especialmente após o sucesso da revolução. Caso contrário, teríamos sido desacreditados. Os ortodoxos perceberam isso e nos agradeceram. Para minha surpresa, eu pensei que eles se ressentissem de nós, mas achamos graça em seus olhos.

Também estávamos orando pela unidade entre os cristãos por muitos anos, então o que aconteceu na revolução é que, paralelamente a ela, tínhamos um programa diário de televisão chamado Escola de Cristo, ajudando os cristãos. Ele tornou-se muito popular. A exposição da Teologia Sistemática proporcionou uma apresentação lógica da apologética, ajudando os cristãos a compreender a sua fé e a como praticar a sua fé. Pela primeira vez, cristãos estavam ouvindo sua fé sendo apresentada, como responder a questionamentos e como viver a fé e aplicá-la à vida cotidiana. Esse programa, mais a revolução, deu à Igreja um catalisador para a unidade entre os cristãos. Em eventos importantes, vimos a Igreja Católica Romana, a Igreja Copta e os evangélicos sendo representados. Foi um milagre e, desde então, uma nova unidade resultou entre essas três famílias. Hoje, em todo lugar que eu vou, eu sou recebido por bispos, monges, sacerdotes, todos os tipos de líderes espirituais, pedindo-me para falar, acolhendo-me de maneiras inacreditáveis.

Como tem sido o rosto do Evangelho no Egito? Mudou? E como o testemunho dos cristãos tem mudado o Egito?
Estamos em um novo dia. É a primeira vez que somos vistos e ouvidos por toda a comunidade. A igreja começou a ser vista pelos muçulmanos de uma maneira muito diferente. Muçulmanos costumavam odiar, desrespeitar e ignorar a igreja. Agora, muitos deles respeitam a Igreja, porque eles podem agora comparar o que as igrejas fazem com o que a Irmandade Muçulmana e os salafitas (muçulmanos) fazem. Eles vêem a diferença. Podemos ler tweets com mensagens como: “A Irmandade Muçulmana está nos matando e a igreja é a cura para nós”. Antes desprezados, odiados e negligenciados, agora vemos que alguns deles, cerca de 30%, já nos vêem de uma forma diferente. Houve também um aumento no número de conversões para Cristo.

O que vai fazer quanto à decisão política e a confecção da Constituição?
A igreja foi convidada a estar no comitê. Porém, no final, tivemos que nos retirarmos, porque a Irmandade Muçulmana e os salafitas decidiram escrever a Constituição de acordo com suas crenças islâmicas, e não de acordo com a forma civil de pensamento. Assim, a igreja teve que retirar-se juntamente com os liberais. Nós dissemos que o que eles estão fazendo é contra a liberdade pessoal, a dignidade e a justiça social, e essas haviam sido as três bandeiras da revolução. O projeto final foi contra esses três. Dissemos que não iríamos retirar os nossos direitos. Nós nos retiramos, porque era contra a democracia, não por causa de nossos direitos como cristãos. O novo papa ortodoxo, Tawadros II, é sábio. A unidade está em seu coração. Muito experiente, sábio e humilde, fiquei emocionado.

Os cristãos de hoje estão agindo de uma maneira cristã, demonstrando fé cristã. Agora, muitos cristãos estão envolvidos como indivíduos e muitos são muito respeitados. Até a revolução, os cristãos não estavam na arena política. E a igreja está protegendo os direitos das pessoas, representando os valores da comunidade, e não apenas envolvida na política. Então, agora estamos envolvidos no modo certo.

Então, qual é a próxima etapa para o seu ministério? No que você vai se mover ao longo dos próximos cinco anos?
Isso irá depender da situação. Há dois cenários possíveis. Islamitas primeiro irão assumir. Liberdade será suprimida, a perseguição virá. Muitos cristãos na área rural de hoje estão sendo perseguidos. Casas, campos e lojas estão sendo tomados. Nas cidades, por causa da população, não é tão ruim assim. Islamitas tiram terra e lojas pela violência e armas, e o governo não está protegendo os cristãos. Então, se os islamitas assumirem, como esperamos, perseguição virá; e esperamos também que a economia entrará em colapso, e as pessoas vão morrer de fome.

Segundo cenário: os liberais vão ganhar, ou seja, pontos de vista civis vencerão, rejeitando o regime teocrático que os islâmicos querem e defendendo a democracia e a liberdade, não associando religião com domínio político. Se esse lado ganha a batalha mais à frente (e nós acreditamos que eles são a maioria), teremos mais liberdade, a economia vai melhorar. Mas, se o primeiro vem, a igreja vai passar à clandestinidade e ser oprimida.

Se o segundo cenário vir, então vamos ser mais vistos e ser capazes de trazer a verdade e o amor ao povo do Egito. Estamos trabalhando para nos preparar para qualquer cenário.
 


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